Cadinho RoCo – Jeito outro de ler e pintar a vida.

Estréia oficial do Blog – 27 novembro 2006

sábado, 24 de fevereiro de 2018

MANHÃ NUBLADA

MANHÃ NUBLADA
      Encontro repentino com Andreia na rua. Ela correndo eu indo ao banco pensando no que fazer em manhã nublada.
     Conversa indo de Jaboticatubas a Nova Lima enquanto observo bermuda que preciso comprar, mas hoje não dá. Dia de não gastar dinheiro porque tempo está fechado e por isso não animei sair com bicicleta Jorgina.
      Da vizinhança aroma apetitoso a vagar pelo silencio das nuvens pesadas a esconderem o azul do céu. Dia com fome de luz. Será isso?
Belo Horizonte, 24 fevereiro 2018
FICAMOS SEM FICAR
     Ficamos assim. Ficamos sem ficar. Ficamos de encontrar na semana que vem. Entre outras vindas, ficamos assim. Ficamos acertados com dia e hora marcada. Na possibilidade de nenhum imprevisto, nos encontraremos. Ficamos assim na crença do encontro. Ficamos, como estamos, no futuro de boa conversa. Assunto diverso que então estará anunciando a nós, o que temos feito e querido fazer.
     Não ficamos na estagnação. Não ficamos entregues ao sabor do tempo. Não ficamos sem acesso, nem afastados do que está por acontecer.
     Ficamos entre caminho e outro abrindo trilha para que então tenhamos como ficar depois de um novo contato.

Belo Horizonte, 23 maio 2003

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

INTRIGANTE


INTRIGANTE
      É lógico ser mais que prudente eliminarmos aquilo que venha a nos atrapalhar ou trazer lembranças tão desagradáveis quanto inúteis às nossas vidas. Da mesma maneira ser prudente mantermos na lembrança referências ainda que desagradáveis para que possamos evitar ocasiões que ofereçam possibilidades semelhantes ao que não nos faz bem.
      Escrevo pensando na aquarela que quer nascer da minha inspiração. Pinto pensando nas palavras que a inspiração traz em busca da minha caligrafia. Os contrastes oferecem a nós liberdade de escolha e são pelas nossas escolhas é que vamos experimentando a vida posta ao nosso dispor.
Belo Horizonte, 23 fevereiro 2018
IMAGEM DO IMAGINÁRIO
     A escultura criada pelo eterno Amilcar de Castro é de uma beleza singular. Um triângulo vazado em grossa chapa de ferro, é vazio inundado de imagens formadas e deformadas pela posição dos nossos olhos. Sutil mutação que propõe movimento ao estático. Ela está entre a Praça Carlos Chagas e o prédio da Assembléia Legislativa de Minas Gerais desafiando silenciosamente as leis da estética. Uma maravilha transformada em símbolo do poder legislativo mineiro como homenagem à sua forte representação artística. Uma assinatura que legitima a criatividade humana, então representada pelo indiscutível talento de um dos grandes escultores brasileiros do século vinte.
     Quando requisitado a enviar para São Paulo imagem que identifique Belo Horizonte, eis que da lembrança sou levado à escultura do Amilcar. Ela simboliza Belo Horizonte, Minas Gerais e a Inconfidência Mineira, origem do triângulo estampado pela bandeira erguida em busca da tão almejada emancipação brasileira. Diante da escultura, mergulho no vazio do triângulo, buscando em minha vaziez a presença de alguma imagem do imaginário.
Belo Horizonte, 06 maio 2004

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

COZINHANDO

COZINHANDO
      Antes de escrever cato feijão tirando pedrinhas e ciscos indevidos para evitar posterior aborrecimento. Agora que o feijão cozinha, posso escrever em meio ao desejo de criar nova aquarela porque ideias borbulham na intenção enquanto no céu nuvens anunciam chuva.
      Na praia vazia penso nos passos que aqui ganham outro rumo. O barulho da chuva serve para estimular lembrança do mar. A praia, ainda que na maré do imaginário, serve para inspirar palavras e eventuais desenhos assumidos pela aquarela.
      Bom sentir interesse de quem pensa em comprar aquarelas para que eu possa cozinhar o feijão que alimenta este dizer.
Belo Horizonte, 22 fevereiro 2018
APRENDENDO A DIRIGIR
     Minha intenção era de ir à missa, mas não fui. Dia tomou rumo diverso e com ele fui levado a uma boa causa que agora não vem ao caso, por haver nele outra intenção. Sim, porque são muitas as intenções existentes na vida de qualquer um de nós que estamos envolvidos neste mundo de tantos caminhos.
     Quando a caminhonete estacionou na esquina próxima ao bar, tomado fui pela memória de tempos idos. Aprendi a dirigir em uma caminhonete Dodge fabricada em 1951, ou seja, mais velha que eu. Hoje penso na possibilidade de obter uma motocicleta, ou um desses tantos carros existentes por aí. Mas a caminhonete surgiu desviando meu raciocínio estacionado naquela outra caminhonete Dodge, que por sua vez capturou minha intenção que trazia consigo outro assunto.
     Mundo é assim mesmo. Não fui à missa nem escrevi o que queria escrever. Tema tomou direção diversa. Será que aprendi a dirigir?
Belo Horizonte, 02 maio 2003


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

SEM EXPLICAÇÃO


SEM EXPLICAÇÃO
      Não há explicação capaz de ilustrar aquarelas que assino. As aquarelas são a própria ilustração do que buscam transmitir fazendo com que apareçam reações diversas vindas de referências diversas porque o mundo é diverso, bem como diversos somos todos nós. Daí a presença de rotas e labirintos, passagens e cortes, preenchimentos e vazios a comporem nosso universo prático e afetivo.
     As aquarelas manifestam amor em busca de compreensão a buscar em cada um de nós o que somos.
Belo Horizonte, 21 fevereiro 2018
FORA DE PROPÓSITO
     Diz ter brigado com Deus. Afirmação grave, gravíssima. Por isso mesmo é que o motivo passa a não ter tanta importância. Evidente tratar-se de singular inconformismo que poderá também ser reflexo de alma egoísta e não menos obtusa. Uma coisa puxa outra.
     Em princípio, ninguém tem capacidade de brigar com Deus, pelo simples fato de não poder tê-lo como adversário. Deus está acima do bem e do mal, tal como está acima do contra e ou a favor.
     Por questão de evidência, não creio no ateu. Não percebo como acreditar em quem não acredita. E o mundo está repleto de registros deixados por pessoas que passam vida toda negando Deus, para à margem da morte mergulhar na prece a pedido de clemência. Isso sem contar com os que sequer tiveram chance, ou tempo, de dar trato à consciência.
     Depois, a vida torna-se toda atravancada e o fulano, indignado, vai dizer que Deus não ajudou. E a gente ainda tem que ouvir e incluir em nossas orações pedido de paciência ao Pai que, francamente, tem que tolerar cada coisa. O Cristo tem mesmo razão ao dizer: “perdoe Pai, eles não sabem o que fazem.”
Belo Horizonte, 25 abril 2003

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

ENTENDMENTO SINGULAR
      Querer e não poder é algo tão triste quanto constrangedor. Alimentar o querer é buscar a capacidade de poder agir em favor desse alimento.
     Não crio aquarelas com intuito único de vendê-las, mas com a consciência de que preciso vendê-las para que possamos, eu e elas, sobreviver.
      A questão é simples, mas sujeita a muita interpretação entregue a averiguações outras.
      Estar em sintonia com o que nos revela a necessidade é estar com atenção acordada para o que precisa do nosso agir. O artista necessita de liberdade que possa conceder-lhe a devida independência, inclusive financeira.
     A frase não é minha, mas por demais oportuna: “O dinheiro não compra tudo, mas sem dinheiro não se compra nada.
Belo Horizonte, 20 fevereiro 2018
DAS APARÊNCIAS
     A imaginação é pequena para a imensidão da noite. O sonho, limitado pelo despertar, vasculha formas nem  sempre consistentes à percepção dos sentidos. A vontade, mesmo sem querer, adquire dimensão incalculável, capaz de perder-se em seu próprio vagar.
     Nem sempre conseguimos perceber o que está próximo de nós. A evidência talvez seja irmã da transparência. E na passagem do tempo é que aparecemos e desaparecemos.
     Ao sair do anonimato, o Cavaleiro da Meia-Noite sabe ser esta circunstância passageira. De suas aparições a trajetória de um ciclo que tem  início e fim. Ele então vai alcançando o que poderá ser uma nuvem que irá acompanha-lo cobrindo por mais uma vez sua silhueta. E assim cumpre-se o mistério de Deus confiado à eterna madrinha, Santa Luzia. A santa protetora dos olhos, convida-nos então a fecharmos nossas pálpebras para que o nosso cavaleiro possa seguir o seu caminho em paz.

Belo Horizonte, 17 abril 2003

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

TRANSTORNO

TRANSTORNO
     Tem dia que acorda chato porque é uma chatice o que temos para fazer. Jeito é suportar e minimizar o transtorno porque tem coisas que não conseguem mesmo estar no nosso agrado.
      Suportar aborrecimentos não é tão simples quanto parece, mas faz parte do contexto. Melhor a fazer é procurar evitar rotas que sugerem transtornos. No entanto é fato existirem ocasiões a exigirem o que poderemos encarar como inevitável provocação.
      Com amor tudo tende a ficar suavizado, posto que sem amor o transtorno brota numa velocidade inacreditável.
Belo Horizonte, 19 fevereiro 2018
MELHOR ENCONTRAR
     Escrever é forma de conversa. Estar com você é forma de convívio.
    Conviver é viver. Viver é o que responde a tudo que questionamos. E dar vida ao convívio, é ser outro para que sejamos nós mesmos. Assim assinalamos formas de ser e estar que vão definindo comportamentos. Comportar é estar no mundo que não é só nosso, por ser muito mais que só isso que somos e procuramos ser.
     Das procuras, achados. Dos achados, percepções. E das percepções, o agir que é, mas que também tem a liberdade de fugir à regra. Mas, se não estamos aqui para fugir, melhor mesmo é encontrar.

Belo Horizonte, 11 abril 2003

domingo, 18 de fevereiro de 2018

MUDOU ENDEREÇO


MUDOU ENDEREÇO
      A loja mudou de endereço e por isso volta que dei não adiantou mais do que ficar sabendo que a loja mudou de endereço. Sigo no cumprimento de outros afazeres, entre eles o de ir a outra loja que poderá ter o que eu pretendia comprar na loja que mudou de endereço.
      O produto não é o mesmo, mas similar. Atender atende à minha necessidade, mas irei numa outra ocasião à loja que mudou de endereço.
     Os rumos são infinitos e por vezes somos induzidos a outros na intenção de conseguir o pretendido por nossas buscas. Razão para que também sejamos surpreendidos por lugares novos a nos mostrarem novas perspectivas, pessoas e estímulos ao nosso fazer de cada dia.
Belo Horizonte, 18 fevereiro 2018
LINHA DO HORIZONTE
     Assuntos que interessam, assuntos que não interessam. Quando resolvemos dialogar, ficamos expostos ao que poderá ou não agradar. Quando resolvemos escrever, ficamos diante do simpático e do antipático. Quando resolvemos viver, ficamos entregues aos erros e acertos.
     É mesmo errado crer só nos acertos.
     É mesmo certo buscarmos o entendimento dos erros.
     Assuntos que interessam, assuntos que não interessam. Noites agradáveis, noites desagradáveis. E na aparente apatia das coisas, revoluções inteiras poderão estar acontecendo. Até porque nem sempre conseguimos decifrar o que de fato estão transmitindo as aparências. E de um breve salto, eu e o cavalo Robiara desaparecemos da linha do horizonte.
Belo Horizonte, 04 abril 2003